Noite do alvorecer

Tateando folhas de capim
Folheando bonitas palavras
Era mesmo uma busca sem fim
Por ela, das íngremes estradas
E da névoa.

Estradas e sonhos, reais e sem fim
Olhares depreocupados e simples
Momento de vida pros dois, enfim
Aurora e sangue e braços quentes
Sonhos, vida.

Ora, logo tu me trarás tudo isso
Lembre-me de teu nome, sem falta
Quando nos encontrarmos, em outro sonho
Esquecerei teu nome, mas não as pedras
E os sorrisos.

Versos e cabelos brancos

É verdade então, amigo
Com aquela voz de luz
Ela quer roubar meu silêncio?

Diga-me, posso não me preocupar?
Outra vez simplesmente ser?
Depois de tantos insucessos,
Quem me garante o valor da verdade?

Acalme-se, jovem. Seja quem for,
Será a pessoa certa, saberá como agir.
Tudo será como deve ser, sempre.

O senhor é bonito e saberá o que fazer
Seu silêncio lhe fará escutar
E seus olhos seguirão seu coração
Não se afobe, jovem. O caminho é seu.

Como tem tanta certeza
Se não foi assim com você?
Seu erro pode ser o meu também?

O senhor também é bonito, então
Não soube o que fazer?
Tenho eu mais silêncio e olhos
Que você, que é tão sábio quanto serei?

Não, garoto. Pensas que errei
Só porque tenho velhice em meu rosto,
E não tenho alguém ao meu lado?

Quem erra agora é você.
Meu silêncio foi apurado, meus olhos
Souberam me explicar aos outros
E eu fui feliz, pra quase sempre.

Buscando equilíbrio químico

Vê? Me sinto tão perdido
:Quanto um elétron numa explosão atômica.
Sempre vejo de relance,
:Voando, alguém de carga positiva;

Sob a tempestade louca,
:Tantos fótons altamente energéticos;
Portos parecem seguros
:Porém sempre são atirados pra longe.

Eis que me aproximo
:De um Deutério perdido sem elétron;
Coisa rara no planeta
:E torço pra cair em sua eletrosfera.

Será só mais uma nuvem
Que vem e vai logo depois de notarmos,
Mas antes de nos notar?
Será que enfim terei meu equilíbrio?

Grand finale da noite

Vê? O sol logo nasce;
Já sobe a encosta.
Estrela D'alva, vá-te:
Encontra a lua posta.

O mundo abre as pálpebras
Co'a luz e o cantar dos pássaros.
Apagam-se Candeeiros;
Aos poucos, secam as pedras.

De amarelo a manhã enche
E ainda há nuvens rubras;
Pardal, no canto capriche:
Espalhe som co'asas destras.

Do espelho d'água a bruma
Logo esvazia e some;
Melhor não há em suma
Qu'esta manhã sem nome.