O Desígnio do Sol e da Lua - Le Croisade - III

A luz dourada sobre o oeste logo se desfez, oculta pela cortina de matizes púrpuras e azuis que persistiu até o fim do crepúsculo. Havia sombra de outras divindades menores praqueles lados. Algumas delas talvez nunca seremos capazes de sentir. Nem são todas tão raras. Algumas tão banais e sem propósito que parecem indadequadas àquele domínio de incomum boniteza.
Havia uma prova de que a luz de Deus também brilha por aqueles lados. Ainda que subjetivamente, ainda que sem manifestações mais claras, ainda se sente o calor do Sol, forte, até porque, não há nada que viva sem isso. Só cogumelos. Ainda que não fosse uma luz tão visível e real quanto aquela que traz vida às florestas verde escuras, era uma luz que parecia estar dentro daquela terra, iluminando somente o invisível. Como um cristal protegido por espelhos. E a esperança é que haja alguma entrada de luz pra esse cristal.
Esse era o desígnio divino para o Arauto.
Ele devia se tornar capaz de projetar toda a luz divina sobre aquela terra. Trazer aquilo que seus habitantes só haviam experimentado em sonhos. Ele era o Arauto da Luz. Não sabia se os Maartonenses acreditavam mesmo na intervenção de Deus na realidade. Sequer sabia se acreditavam nele. Contudo todas as previsões negativas de Mury davam errado. E, se acontecessem, ele resistiria, sem perder a postura herdada de seu sangue nobre. O arauto não desistiria enquanto restasse luz em seu coração. Ele sempre sentia que essa luz é infindável.

Tocado pela Lua - Le Croisade - II

O Arauto austero ainda estava sentado. Mas não chegava a ser um paladino de triste figura, apesar da presença de seu fiel escudeiro.

Quem nunca o viu diria que a chuva, o ruído e a bebida trescalante o haviam deixado louco. Quem pensa que o conhece, diria que é melhor não o abordar no momento. E quem realmente o conhece, teria vontade de se juntar a ele. Debruçado sobre uma mesa, sem nem assim perder sua postura, ele olhava em direção à uma janela grande, um rude buraco na parede virado para oeste, de onde ventava uma brisa que parecia indiferente à chuva no sentido contrário.

Ainda se via luz naquela direção. Ainda se via da luz dourada do Deus Sol em direção à Maartotanaiatt. Era uma luz subjetiva, quase imperceptível, confundida com estrelas comuns e brilhantes que se formavam sobre aquela mancha azul violeta sob o manto da chuva no canto de um céu já enegrecido.

Tudo acontecera muito recentemente. Ele se descobriu o Arauto na a última lua cheia, mesmo assim, era como se tivesse sabido disso sua vida inteira. Ainda se lembrava do frio, condensando sua respiração e tomando conta de seus braços nus suspensos em forma de arco em direção à lua forte e quase ofuscante. Abandone o calor terrano, ele pensava. Quando realmente sentiu e compreendeu a força do Sol incidindo sobre sua carne fria, aprendeu a aguentar o frio.

Então ele aceitou o chamado.


Seria como a Lua.
Refletiria a luz
para aqueles na sombra
quando fosse necessário.

Seria como a Terra.
E com o calor do Deus
protegeria a todos
do frígido universo.

Seria como a Lua.
Aprenderia como
acender a luz do Sol
e a contemplar seu brilho.

Seria como a Terra.
E só com o brilho gélido
alvo e puro da Deusa,
poderia curar todos.

Antes da chuva.- Le Croisade - I

O ruído da chuva não é tão poético sobre telhas baratas.

Ainda está de dia, mas bem escuro. Ele espreme um limão sobre um copo com alguma coisa de cheiro forte. Ele não está feliz com a chuva. Mas está, mesmo assim. Há tempos que não chovia. O tempo bom já tinha agilizado sua viagem o suficiente. Ele ainda precisava de tempo pra pensar. Estranhamente, ele parece não estar molhado.

As telhas da casa continuavam a chiar. Era como se ele não devesse estar ali.
Como havia dito Mury, o escocês, ali era um bom lugar. Não eram todos os moradores da região que hospedariam estranhos. Mas todos pareciam ter sentido a bênção do Senhor na altivez daquele homem distante que não se molhara na chuva.

Belong and don't be long

É verdade. Deve haver um lugar. Não é possível
Que as pessoas vivam só de hoje. Que as pessoas vivam só de Terra.
Um lugar. Where the lonely people belongs. Aonde as palavras brotam, como se evocadas. Aonde nada importa mais do que sentir. Aonde o tempo não precisa ter sentido, e você pode ver rastros de aurora e pôr do sol no mesmo horizonte.
Lá, você pode, através de saltos sobre montanhas de cumes nevados ou vôos sobre florestas de carvalhos no outono, encontrar qualquer utopia. Ilhas inexistentes de telhados vermelhos e colunas de mármore brotam sob cascos de navios. Planícies viram cordilheiras com obras maias. Montanhas desmoronam dando lugar a fortalezas de confecção não humana. O céu pode ser vermelho, e o solo azul. Luas podem girar umas sobre as outras. Planetas têm mais de um sol, e "Binary Sunset (hologram)" ecoa de lugar nenhum. Micromacrouniverso dentro de cada um.

All the lonely people
Where do they all belong?

Havia de estar chovendo agora.

Eu não tenho dúvida disso. Havia de estar chovendo. Uma chuva quente de inverno, daquelas paradoxais. Tenho saudades de chuvas assim. Talvez porque nunca tenha visto uma dessas.
Sinto falta do cheiro de chuva. Uma vez me disseram que era na verdade cheiro de ozônio, mas pra mim ainda é cheiro de terra molhada. Uma das coisas que eu mais gostava quando vim morar aqui.
Sinto falta das manhãs com vapor saindo do lago. Sinto falta de neblinas. Sinto falta de frio.
Nós não temos mais os mesmos invernos.

Agora não durmo mais.

Pelo menos não como estava acostumado
Não tanto, e com tanto empenho.
E agora eu deito a cabeça e estou calmo
Agora eu deito e sou acariciado pelo ar frio da noite.
Talvez eu possa dizer que durma melhor.
O desconhecido chamado ar à minha volta
Agora é bem vindo.
Agora eu acordo e agradeço
pela perfeição das ondas sobre a água
E sinto dois sois me aquecendo de manhã.

A lua passou pela minha janela.

E eu demorei a notar. Estava me olhando, de costas. E só foi embora depois que eu notei.
Devia estar querendo que eu notasse a proteção. Ou simplesmente me conceder a bênção pros olhos.
Deve ter notado minha ausência. Não a fitava mais tanto, não a cumprimentava no início da noite.
E o fazia pra uma estrela, no fim da tarde. Agora não acho mais a estrela. Mas a lua veio me procurar.

Fecho os olhos para ver.

Olhos velhos não enxergam mais do que todos vêem. E eu começo a sentir, um sussuro da boca da terra. Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um ponto de partida. Enquanto o sol se mantém sobre minhas costas nuas, eu não sinto mais frio. E então é só a terra molhada sob meus pés e a brisa que me faz vivo. Só nesse momento eu posso dar um passo a frente, como um salto, e me desprender de mim mesmo.

Ventos do sul que deveriam vir do norte

Ventos de inverno não sopram.
Ventos de inverno fluem, e são, e estão
são essencialmente mais sólidos e ao mesmo tempo mais subjetivos
e me parecem não virem certo pra mim.
Todo o magnetismo da terra me indica que estou do lado errado
tudo gira inverso pra mim
E eu aprendo a ver espelhado, e vejo o norte no sul
E vejo que ainda não posso voltar pra casa.

Das nuvens vermelhas

Elas vêm no horizonte. Se não as vêem no momento certo, elas desaparecem.
E se olham pra outro lado, elas não estão mais lá.
Alguns contestam a sua existência. Outros têm certeza da sua beleza momentânea.
Cada molécula do tão importante para nós H2O não atinge a plenitude antes de ser iluminada por um sol vespertino e de se aproximar à imagem de seu elemento contrário, segundo os antigos alquimistas.

Mal agouro, alguns dizem. Pois eu digo bênção. E digo que não é vivo aquele que apreciou poucas delas.

Sua boniteza pode ser singular a cada segundo, a cada pessoa, a cada cenário. E elas flutuam. Poucas coisas são tão mágicas. Massageam a retina daqueles que realmente vêem.

Isso eu escrevi com vontade.

Hey, look! My own bridge to Terabithia!
http://www.orkut.com/Album.aspx?uid=18227248475514644345


É bem simples pra ter uma idéia sobre isso, é só não ser muito egocêntrico. Ando descobrindo o quanto sou transparente. Espero que isso não me impeça de ser profundo.
Me veja sem olhar. Ouça minhas palavras e meu tom sem a minha voz. Ouça meus passos, me veja olhando pra nada. Olhe nos meus olhos e tente ver algo mais que seu reflexo. Ou não.
Ouvir Beatles também pode ajudar bastante.

Without going out of my door
I can know all things on earth
Without looking out of my window
I can know the ways of heaven

The farther one travels
The less one knows
The less one really knows


Without going out of your door
You can know all things on earth
With out looking out of your window
You can know the ways of heaven

The farther one travels
The less one knows
The less one really knows

Arrive without travelling
See all without looking
Do all without doing

--

I’ve got a feeling, a feeling deep inside
Oh yeah, Oh yeah.
I’ve got a feeling, a feeling I can’t hide
Oh no, Oh no, Oh no,
Yeah I’ve got a feeling.

Oh please believe me
I’d hate to miss the train
Oh yeah, Oh yeah.
And if you leave me I won’t be late again
Oh no, Oh no, Oh no.
Yeah I’ve got a feeling yeah.

All these years I’ve been wandering around,
Wondering how come nobody told me
All that I was looking for was somebody
Who looked like you.

I've got a feeling
That keeps me on my toes
Oh yeah, Oh yeah.
I've got a feeling
I think that everybody knows
Oh yeah, Oh yeah.
Yeah I’ve got a feeling.

Ev’rybody had a hard year
Ev’rybody had a good time
Ev’rybody had a wet dream,
Ev’rybody saw the sunshine
Oh yeah, Oh yeah, Oh yeah.
Ev’rybody had a good year,
Ev’rybody let their hair down,
Ev’rybody pulled their socks up,
Ev’rybody put their foot down.
Oh yeah, Oh yeah, Oh yeah.